Friday, May 19, 2006

Indignação

Por Books

Na semana passada, enquanto me arrumava pro trabalho, fiquei vendo no programa da Ana Maria Braga, o Mais Você, uma entrevista por telefone da apresentadora com um alpinista que estava prestes a escalar o Everest sem auxílio de oxigênio suplementar. A primeira pergunta que não me saía da cabeça: que tipo de burro é esse? Mas enfim, durante o papo e depois dele foram reprisadas entrevistas que a produção do programa havia feito com a família do cidadão: mulher, filhos bebês, pai, mãe, todos visivelmente temerosos com o esporte pelo qual o engenheiro de alimentos havia trocado sua estável profissão.
Naquele momento fiquei muito indignada. Não me conformei de um cara que tem família, filhos e pais preocupados deixe tudo isso para simplesmente... Chegar ao topo do Everest em condições tão adversas. Ok, para ele aquilo poderia ser um máximo e para mim não, tudo bem. Mas mesmo sabendo disso, não me conformei como um cara desses poderia fazer uma coisa daquelas numa boa, feliz e mais, que ele se sentiria realizado com aquele perigosíssimo feito. Ele ia, feliz, arriscar sua vida, mesmo com as responsabilidades de pai e marido que carregava?
Comentei essa minha indignação com as pessoas ao meu redor, obviamente em vão, eu nada poderia - e nem fazia questão - fazer para mudar o curso da vida do rapaz que eu nem conheço. Mas aquilo realmente me deixou perplexa. Hoje, dando uma olhada no Terra, vi uma manchete que anunciava que "Alpinista brasileiro morre ao escalar o Everest". Era ele, Vitor Negrete. Obviamente, como vi a notícia logo que ela foi postada, e dar em primeira mão no jornalismo online vale muito mais do que noticiar depois, com mais e melhores informações, havia na nota duas linhas de registro. Mas agora a notícia está mais completa e afirma que "o desgaste excessivo teria sido responsável pela morte".
Diante disso, não sei mais o que dizer. Só que eu continuo acreditando que as pessoas não devem arriscar suas vidas por tão pouco quando se tem tanto.

Tuesday, August 16, 2005

BOTECOTERAPIA

MURAD

Um dia desses num típico bate-papo de boteco – o melhor centro de terapia de boêmio já inventado –, um amigo disse resoluto: “decidi arrumar outra mulher!”. E antes que pudéssemos falar qualquer coisa ele já emendou: “não vou deixar minha esposa, quero arrumar mais uma. É mais fácil e menos traumático. Ao invés de ter que me divorciar e me preocupar em procurar outra, vou cozinhando o galo – no caso a fêmea do bicho, enfim –, e fico na moita a espera de outra”. Era uma teoria, apesar de tudo, mas enquanto ele molhava o bico não tivemos reação e ele continuou: “e também me previno da crueldade da dor de pé-na-bunda feminina”.
O amigo, que contraiu matrimônio muito cedo e já estava casado há tempos, devia estar sofrendo com a rotina do relacionamento, logo pensamos. Mas o melhor, ou o pior – ainda hoje não sabemos –, estava por vir. Como justificativa para a pulada de cerca ele nos contou o infortúnio de um velho conhecido. Chamemos o pobre diabo apenas de cidadão para preservar o resquício de dignidade que lhe sobrou. O infeliz, muito trabalhador e mais boêmio ainda, tinha se casado há um punhado de anos com uma jovem interiorana, muito prendada e simpática até, e que não queria mais nada da vida do que viver feliz com seu amor. Mas com os anos de relacionamento o fogo da paixão abrandou e, dando uma força pra sorte, o cidadão acabou conhecendo uma moça da cidade grande de passagem por aquelas bandas. O flerte esquentou, virou uma picância, a mulher se tornou amante e em pouco tempo já exigia um casório com papel passado. O pobre coitado, apaixonado e vislumbrando uma vida maravilhosa na capital, decidiu ser, enfim, honesto com a esposa e lhe contou o acontecido. Mal a tinta do contrato de divórcio secou, os pombinhos já saíam da igreja direto para às núpcias. Mal sabia ele que nesse exato momento seu destino estava selado... Na capital não poderia levar vida melhor. Feliz da vida com a nova esposa, o cidadão ia de vento em popa no trabalho e dava tudo do bom e do melhor para a nova paixão. Enquanto isso, no interior, a infeliz abandonada trocou as lágrimas pelos livros e, no mesmo pique de um velocista na prova dos 100 metros rasos, fez o supletivo, passou no vestibular, se tornou bacharel em direito, prestou concurso público, virou promotora, fez carreira pública e se tornou juíza. E quem pensa que toda essa mudança radical tinha como meta se tornar uma mulher independente, bem-sucedida profissionalmente e uma invejável mãe de família, se enganou. Dominada pela cólera desde o pé-na-bunda, a moça não pensava em nada senão no aniquilamento do ex-amor. Com o gosto de vingança na boca e o conhecimento da faculdade na cabeça, a já pra lá de emancipada mulher entrou com um processo contra o ex-marido por abandono de lar e, para desgosto do pobre diabo, ganhou a causa. O cidadão perdeu até as calças para pagar o preço da pulada de cerca e até hoje vive miserável com a dama da capital, da qual virou capacho para sobreviver. A simpática interiorana seguiu firme no ofício de magistrada, onde fez fama de botar medo até nos maridos mais machões. Nosso amigo teve que mudar de planos semanas depois, quando levou um pé-na-bunda da esposa que o deixou para viver com o vizinho – que sempre a ajudava nas tarefas domésticas enquanto ele estava no bar. Nós, bem, nós continuamos batendo ponto no boteco e contando esta fantástica história para todo cidadão prestes a entrar na forca, digo, contrair matrimônio.

Friday, June 17, 2005

A cerveja da sexta-feira

“Che” Bagaça

A maioria dos profissionais que conheço aprecia um happy hour em qualquer dia da semana, mas o recorde de movimentação para uma cerveja depois do expediente é mesmo na sexta-feira. Não foi à toa que este dia ganhou o apelido de “sexta-breja” e os bares de calçada, mesmo os mais pés sujos, ficam lotados. É possível encontrar gente de todas as classes e das mais variadas profissões. Para mim, um bar aberto na sexta-feira é um dos lugares mais democráticos do País. Até nosso vice-presidente, José Alencar, que é do PL e atualmente ministro da defesa, reconhece que um dos melhores lugares para se debater os problemas do Brasil seria na mesa de um bom e velho botequim, só esqueceu de falar da sexta-feira. A discussão política é uma das mais freqüentes na zona boêmia e as idéias para solucionar os problemas sociais do brasileiro são bem interessantes, pena que nenhuma delas tenha validade.
A popularidade do último dia útil da semana é tão grande que ganhou até hit para propaganda de cerveja, a Bavária. Quem não lembra da clássica musica sertaneja para homenagear o dia: “Hoje é sexta-feira traga uma cerveja...”. A campanha fez sucesso no Brasil inteiro, inclusive nas classes mais baixas. Muitos trabalhadores não têm dinheiro nem para sustentar a família, mas não deixam de tomar a sua merecida “loira gelada” na sexta-feira. Nessa brincadeira, o tão suado dinheirinho vai todo embora e as suas respectivas mulheres são as que ficam irritadas com isso.
Quem lida com a contratação de pedreiros para reformar a casa sabe que a maioria desses trabalhadores sempre exige que, pelo menos parte da sua remuneração, seja feita sempre nas sextas-feiras enquanto durar o serviço. Almoçando com alguns que trabalham atualmente na minha casa descobri que a cerveja depois do expediente é um dos motivos disso. “Ahh temos pelo que tomar a nossa do final de semana, né”, disse um deles que não lembro mais o nome. De imediato lembrei de uma história que apurei quando era repórter do Barra Pesada, programa jornalístico veiculado pela RBA, emissora do Pará. Estava de plantão exatamente em um sábado de manhã quando recebemos a denúncia de um homicídio ocorrido na noite anterior em um bairro do subúrbio de Belém. Segundo a pessoa que ligou para a redação do jornal, a notícia se tratava de um crime passional. Quando cheguei no local encontrei um homem com uma faca enterrada no peito. Ele estava caído no chão da cozinha com a cara dentro de uma panela de feijão. Segundo a vizinha, que me serviu de fonte, o assassinato teria acontecido por que a mulher do falecido não agüentava mais a bebedeira do marido. Todas as sextas ele chegava embriagado em casa. E a sua profissão era a de pedreiro.

Thursday, June 16, 2005

Quando a ressaca vira tsunami

Por Marinoca

Começa no momento em que você abre os olhos cheios de maquiagem de ontem e olha para as roupas amassadas e cheirando a cigarro no lugar de um pijama. Aí levanta com enjôo e sem voz e antes mesmo de conseguir se equilibrar em pé para correr para o banheiro já sente algo parecido com culpa. A cabeça está doendo e seu reflexo no espelho representa pelo menos uma parte do que seu corpo está sentindo. Ao tentar arrumar o cabelo um chiclete sai do maior ninho formado pelos fios “Por isso aquele cheiro de hortelã maldito”.
No começo é tudo meio imaginário as imagens da balada vão aparecendo aos poucos e sem nenhuma linearidade temporal. Daí você começa a se perguntar coisas como: “Mas o que eu estava fazendo em cima daquele muro com duas lanternas na mão?”. É mais ou menos nessa hora que você olha pra baixo e percebe um curativo na altura do seu calcanhar. Conclui então que apesar de não saber como subiu no muro você já pode imaginar como foi a descida.
Aí, quando você começa a tentar uma técnica budista (inventada por você mesmo) para esquecer de vez a noite de ontem e nunca mais lembrar, toca o telefone. A vida é assim. Sempre tem um amigo para contribuir, com certo prazer, com a sua dor de estômago de remorso. Ele sempre começa com um adjetivo que explica boa parte da sensação “acho que fiz merda”, como: “E aí, beijoqueira???” ou “Ta vivo, cantor?” e a pior “Já se recuperou, Demi Moore???”.
Nessa hora a curiosidade fala mais alto e você pede explicações. O amigo do dia seguinte geralmente não é do tipo caridoso e faz questão de explicar com a maior riqueza de detalhes possível o que aconteceu enquanto você se retorce desesperadamente na cadeira. “Daí você pegou na mão dele e começou a cantar ‘you’re just too good to be true...’”. Se você ainda ia vomitar é nessa hora que corre pro banheiro.
Agora você já parou de sentir as dores e só quer saber logo de tudo e voltar a dormir. “Mas e o muro, por que eu fui parar em cima de um muro e que machucado é esse no meu calcanhar?”. Tem vezes, no entanto, que o amigo sádico não é suficiente pra desvendar os mistérios. “Que muro? Quando eu saí de lá você ainda estava dançando com fulano, não sei como você foi embora!”.
Você desliga o telefone e bate uma preocupação nova “Meu Deus! Como foi que eu paguei a conta???”. Começa então a busca pelo canhoto do cheque ou comprovante de venda do cartão. Eventualmente você encontra algo que, pela quantidade de números, te explica mais um pouco as coisas.
Depois, mesmo sem muita certeza de que é a atitude certa a se tomar, você resolve ligar para o fulano. Esse, no caso, não é mais o amigo sádico e sim o amigo “tenho até vergonha de te falar o que aconteceu”. Esse vai amenizar os estragos com frases que ficam em cima do muro (não o mesmo em que você subiu) até a hora em que você perguntar algo realmente comprometedor, como: “Mas eu não falei pro ciclano que ele tinha mau hálito, falei?”. Neste caso a pergunta era: “E por que raios eu estava em cima do muro?” e a resposta “ Ué? Você estava procurando a galinha!!!”.
Ai! Mais uma pontada no estômago e a lembrança da idéia de colocar a galinha amarrada no capô do carro pra ela sentir como seria voar e não ter mais esse complexo galináceo de inferioridade em relação às outras aves. Agora você está insaciável e mesmo sabendo que é uma má idéia pergunta:
- “Mas da onde surgiu a galinha???”
- “Você viu ela numa casa e tentou pular o muro para pegar...”
- “Mas e as duas lanternas?”
- “A gente tinha uma no carro e aquele cara que voltou com a gente, seu “amigo”, te emprestou a outra..."
- "Pra eu procurar a galinha?"
- "Não! Pro show que vc resolveu fazer lá em cima!!!"
A última e derradeira pontada lhe atinge antes de você desligar e sair em busca de algo bem sem gosto para comer sem passar mal. A ressaca moral está instaurada e não tem mais volta. Só o tempo vai fazer você parar de se sentir um completo idiota. O estrago está feito só resta prometer de novo: “Nunca mais coloco uma gota de álcool na boca!”.

Wednesday, June 08, 2005

Filho teu não foge à luta

Murad

O cidadão mal chega no mundo e já é açoitado com um tapa na buzanfa. Quando já tem idade pra atender comandos, o açoite não pára: "Menino, lava essa mão!", "Escova os dentes, seu mal criado!". Na adolescência então... Não é à toa que nessa época todo o tipo de loucura imaginável se manifesta – claro, açoitando. Sexo, drogas, rock´n´roll (num parênteses musical, botemos aí a dupla sertaneja da hora e a banda de axé music nossa de cada dia que insistem em açoitar a paciência! Enfim...). É aquele momento rebelde sem causa, hormônios à flor da pele: "meus pais não me entendem", "o mundo me odeia", "onde é a festa mesmo?". Paixões da adolescência... Ô intensidade efêmera! Articulações políticas no Diretório Acadêmico, passeatas contra o aumento das mensalidades e a favor da legalização da maconha – questões de Estado! – e trocentas festas depois... Colação de grau, formatura, porre homérico, diploma. Ê laiá... daí é tchau e benção meu amigo. E quando o mundo parece ser todo oportunidade e nada pode impedir o encontro do emprego perfeito, lá vem mais uma safra de açoite. Trabalho chato, chefe mala, dia longo, noite curta, salário baixo e pique pra bagaça nas estrelas. Oh combinação problemática! É aquela eterna briga do capeta maneiro contra o anjo bonzinho. Mas e nessa, como fica o cidadão? Não fica, empurra com a barriga. Fecha a conta, mata o beque e passa o açoite adiante.

Monday, June 06, 2005

Manifesto Pró-sonequista

Por Juliano M., mais um filósofo de botequim

O substantivo feminino soneca, segundo a definição do Dicionário Houaiss, quer dizer pequeno sono, breve espaço de tempo que se passa dormindo, cochilo, sonata, sonolência. Mas diria mais. A soneca durante a aula da faculdade é o descanso do guerreiro, que mesmo depois duma empreitada alcóolica-psicotrópica madrugada a dentro se digna a ir à aula para se aperfeiçoar para encarar o mercado de trabalho.
Aquela típica "pescada" em reunião com a chefia nada mais é do que o sono do justo, que tranqüilo por ter feito seu trabalho de maneira irrepreensível repousa serenamente. Já aquele bocejo maroto no meio de um bate-papo profissional não é se não o sinal do cansaço por estar tão compenetrado num assunto de extrema importância.
Veja bem, a soneca não é uma desculpa para a indolência. Muito pelo contrário! É a constatação sóbria e austera de um indivíduo de uma pequena indisposição física – causada por ene motivos que não vêm ao caso mencionar – que o desabilita de exercer com plenitude suas obrigações trabalhistas. E por isso mesmo, por ser um agente do reconforto físico e intelectual, a soneca se faz necessário e, em última instância, é um ato de utilidade pública.
Isto posto, seja no metrô ou no ônibus na ida para o trabalho, depois do almoço, num dia de ressaca a qualquer hora ou no começo da Sessão da Tarde, a famosa soneca, malquista por poucos (porcos capitalistas!) e praticada a exaustão por muitos, é a engrenagem-mor que impulsiona e dá vida a esta belíssima e socialmente irresponsável economia neoliberal pós-industrial globalizante na qual o tempo, mesmo o da soneca, é dinheiro.

Friday, June 03, 2005

FÁBULA COTIDIANA 2

Por D. M. Timóteo

Quando nem sei mais por que virei as palmas das mãos para o chão...

Não me lembro muito bem como foi que começou ou o que me moveu àquela ação. Só lembro mesmo que estava descendo a Augusta num daqueles dias em que as ruas estão realmente lotadas, fazia calor e eu estava com fome há mais ou menos umas duas horas. Acho que foi aquela angústia momentânea que gerou uma ação física explosiva.
Quando vi já estava correndo desesperadamente pelas ruas sem muita direção. Desembestei na descida desviando das pessoas, barraquinhas de camelôs e pontos de ônibus, dobrando as esquinas com uma série de gingados dignos de um astro do futebol americano. Enquanto corria sentia alguma espécie de felicidade difícil de descrever, como acordar para ver desenhos.
Mas durou pouco... comecei a me sentir idiota, principalmente porque levava os braços abertos, com as palmas das mãos para baixo (o que causou algumas confusões nas ruas que tive que ignorar). Ainda bem que chegara ao meu destino. Entrei rapidamente no prédio, fechei a porta atrás de mim e parei, de frente para a porta de vidro, olhando para baixo por alguns ofegantes instantes.
Levantei os olhos e através do vidro vi algo que acreditei na hora ser uma alucinação. Um grupo de cerca de cinco ou seis pessoas me olhava do outro lado da porta, na calçada, com os braços abertos e palmas das mãos para baixo, em fila. Mais uma vez preferi não me manifestar, com medo de estar sendo enganada pelo meu cérebro e sofrer represarias cruéis do porteiro que continuava sentado coçando a barriga, com a mesma cara de sempre.
Virei de costas um pouco apavorada e segui para as escadas. Acreditei que eram ilusões que me perturbavam graças à grande oxigenação repentina do meu cérebro, por conta do grande esforço que tinha tido na minha empreitada esportiva. Vejam bem... Não sou do tipo atlético, é claro!
Bom, subi, cheguei ao apartamento do amigo que me esperava com cara de quem sabia de tudo e olhei pela janela. O grupo continuava lá e agora andava por uma circunferência imaginária ainda em fila. Ainda duvidei de meu equilíbrio emocional por um instante mas decidi mostrar para meu amigo. Nossa reação foi estranha, não caímos na gargalhada como era de se esperar. Nos abraçamos junto à janela com um verdadeiro e respeitoso medo. Decidimos então fugir pela saída dos fundos do prédio, por onde se entrava na garagem. Sem olhar para os lados atravessamos a rua em direção à esquina mais movimentada e continuamos sem olhar para trás. Quando voltamos à sua casa eles não estavam mais lá. Nunca mais falamos sobre isso mas outro dia ensaiei uma corridinha numa rua menos movimentada e fiquei triste ao olhar para trás e me ver sozinha de mãos abertas com as palmas para baixo.